Qual o seu nome?

Confiram o texto de Marcio Mussarela, um grande Comunicador Corporativo, apresentador de TV, colunista da Revista Você S/A, palestrante que utiliza o que aprendeu em Jornalismo, Artes Cênicas e Administração para encantar, cativar e inspirar platéias em empresas de todo o país.

Marcio Mussarela

Comunicador Corporativo

***

No “servserv” pude notar que já tinha meu mantra estabelecido:

Chegava no mesmo horário, entrava pela mesma porta, pegava a mesma fila, servia a mesma comida e caminhava na mesma direção rumo a balança, até o peso era muito parecido. Ao chegar à balança o mesmo texto:

– pode colocar. Dizia a menina em tom monocórdio.

Eu colocava o prato na balança.

-Qual o número? ela registrava meu número no computador (eu tenho conta lá, graças a Dona Isabel mas isso eu conto em outro post) e completava o mantra:

– pode tirar.

Só faltava um AUMMMMMM para que aquilo virasse realmente um mantra.Todo dia a mesma rotina

– Pode colocar. Qual o número? Pode tirar. Os olhos cabisbaixos fitando a tela da balança. Catatônica.

Um dia o sistema tinha caído e ela não podia registrar no computador os números de conta, então ela devia confirmar os nomes das pessoas para anotar num bloquinho de papel. Mesmo assim continuava o mantra:

– Pode colocar. Qual o número? Seu nome? Pode tirar.

A cada nova pessoa o novo velho mantra.

Ao ver aquilo uma inquietação tomou conta de mim, interrompi:

– O meu é Márcio. E o seu?

Algo aconteceu naquele momento. A expressão neutra que dominava aquela atendente foi ganhando brilho, seu olhar se elevou, descolando da tela fria da balança e cruzou com um outro olhar, o meu.

-O meu nome? Disse ela quase duvidando que aquilo pudesse estar acontecendo.

-É, qual o seu nome?

-É Lais. Disse ela entregando além da resposta um belo sorriso.

– Posso tirar? Perguntei, me adiantando ao mantra

– Pode! Disse ela ainda mais entusiasmada.

No dia seguinte lá estava eu em meu mantra porta, fila, serve, balança. Surpresa.

-Oi. Disse Lais vestindo seu novo sorriso.

– Oi Lais como vai? Disse já colocando o prato na balança.

– tudo bem. Pode tirar.

(Opa! Peraí. Cadê o mantra?) Insisti:

-você não quer saber o meu número?

E ela toda orgulhosa: – é 672 né? Com um ar maroto de quem faz uma surpresa.

-É. Respondi mais surpreso ainda.

– então bom almoço… Márcio.

– bom trabalho, Lais.

A transformação que se seguiu foi incrível. Lais começou a interagir com as outras pessoas, seu espírito era outro, estava motivada, disposta, olhando as pessoas no rosto e oferecendo a elas um sorriso como complemento de suas refeições. Depois pude perceber que ela já chamava os outros pelo nome e também trocava gentilezas. Devo admitir que senti até uma pontinha de ciúmes, mas a alegria dela era tão grande que era impossível não incentivar o seu comportamento.

O que aconteceu? O mantra a havia deixado invisível e ela aceitou essa condição, afinal só recebia atenção de seu instrumento de trabalho e reagia conforme.

A partir do momento em que ela foi vista por alguém e como alguém, ela não era mais um acessório da balança fria, neutra, monótona. E passou a existir, começou a se relacionar com o mundo. Todos no servserv notaram sua mudança e Lais foi promovida. Agora era caixa.

Quantas vezes aceitamos um mantra e quando menos esperamos estamos invisíveis ou cegos? Quantas experiências deixamos de viver por simples falta de iniciativa? Quantas balanças não estão em nossa frente agora? Quantos clientes seus estão à espera de que alguém lhes pergunte o nome?

O meu nome é Márcio Mussarela.

E o seu?

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2 thoughts on “Qual o seu nome?

  1. Prazer, meu nome é Maísa….
    adorei o texto Lu…. incrível!!!
    eu tenho o costume de comprimentar a todos, não importando a função…
    hoje mesmo estava na sala, na pausa de 30min do treinamento, e a faxineira entrou perguntando se podia limpar rapidinho a sala antes dos treinandos voltarem. Falei que sim, não iria atrapalhar em nada. Sei que foram 30 min de conversa prazerosa e gratificante. Há 2 semanas a vejo e não tive a oportunidade de perguntar, mas agora eu sei o nome dela é Marília, e ela sabe o meu!
    Parabéns! beijos

    • Olá Maísa,
      Prazer, sou Luiz Gustavo, rs…

      Você está de Parabéns, pois são poucas as pessoas que sabem como é importante tratar as pessoas pelo nome.

      O que me chamou a atenção neste texto foi a simplicidade capaz de “transformar pessoas”. Realmente posso afirmar que saber o nome das pessoas faz muita diferença, você demonstra preocupação e respeito. Sempre que ministro algum treinamento, um dos meus objetivos é guardar o nome de todos os alunos, só não faço isso em palestras onde o número de participantes é muito grande e o tempo, curto demais.

      Por várias vezes, cheguei a pegar com antecedência a lista de chamada da turma que daria aula e em casa eu memorizava o nome dos 30 ou 40 alunos, chegando na classe, já no primeiro encontro eu me apresentava e falava o nome de cada um deles, rs… era engraçado porque a cada nome, primeiro o aluno levantava a mão com um “olhar de espanto” e em seguida, sorria, como se não acreditasse rs… pois em toda a vida dele, foi a primeira vez que entrou numa sala de aula e o professor já sabia o seu nome e dos demais alunos. Assim, em poucos minutos eu já conseguia um grande respeito da turma e isso sem dúvida, tornava o curso muito mais prazeroso para ambas as partes.

      Beijos Má. Obrigado pela constante participação no blog e sucesso à você e à Marília, rs…

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